Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua”
(da canção Quem te viu, quem te vê de Chico Buarque)
Tenho péssima memória! Nasci com esse dispositivo um tanto desajustado. Não posso nem dizer que tenha memória seletiva, que escolho isso ou aquilo para não esquecer; ou que tenho memória fotográfica. Já vivi experiências difíceis com pessoas me abraçando na rua e dizendo de acontecimentos nos quais fui personagem, sem que eu pudesse sequer me recordar do nome, do rosto, da festa, do beijo. Constrangimentos que resolvi encarar com o ar meio blasé, meio nonsense dos que pedem, desde já, o prévio perdão pela “cabecinha fraca”.
Mas do Carnaval recordo ótimos momentos. Ou não recordo nada, mas os crio através das fotos que marcaram minha vida – e onde nem sempre eu era a razão de ser do registro. Ah...se vocês não sabem, sou a filha número 2 e, como tal e de praxe, tenho menos fotos da infância e adolescência.
As fantasias e o baile infantil do Teatro Municipal – caramba, isso faz muito tempo!!! – eram tradição na minha casa. Éramos oito: eu, minha irmã e seis primos. Todos vivendo juntos, mais as mães e os avós num único – embora grande – apartamento com um só banheiro. Como dava certo, não sei. Lembro de uma regra de civilidade quase militar. Não abríamos a geladeira sem autorização; comíamos o que era colocado no prato. Mas não lembro de ter passado aperto algum com um só banheiro em casa. Só sei que desenvolvi uma técnica eficientíssima de sobrevivência e até hoje tudo o que faço nessa área da casa, faço bem rápido. De verdade.
A cada ano, minha mãe e tias, já em janeiro, iniciavam os preparativos, idealizando as fantasias, nos levando à costureira, comprando adereços. Tudo em nome da folia. Elas mesmas, apesar da infância navegada em dias duros e com pouco dinheiro, viveram intensamente os dias de carnaval. Produziam fantasias, divertiam-se na limitação de sua condição financeira, mas jamais permitiram que a chama e clamor carnavalescos não estivessem presentes em nossa infância.
Minha mãe, aos dois anos de idade, no carnaval de 36
Minha mãe e seus irmãos prontos para a folia no Carnaval de 42
Foto histórica: minha mãe e minha tia, tendo ao colo minha irmã e meu primo, de gatinhos, em plena Avenida Rio Branco. Estávamos no Carnaval de 56.
No baile infantil do Teatro Municipal, no Carnaval de 64. O país fervilhava, mas a folia se vestia de tiroleses. Eu, minha irmã e meus primos. Sou a quarta, da esquerda para a direita, e olho para trás porque o mundo sempre foi interessante para mim. Ah..o índio nada tem a ver com a família.
Novamente na matinê do Teatro Municipal, fantasiados de Age of Aquarius no Carnaval de 66. Sou a gordinha de óculos, no alto à esquerda.Mais alguns anos e já na recém-chegada adolescência, tijucana convicta, começava a desfrutar das matinês e dos bailes noturnos do América Football Club. Minha mãe lá...de olho!! Ali, contudo, deixei de ser a menininha curiosa e pouco sorridente da infância e virei a garotinha que atravessava o salão ao som de Cidade Maravilhosa, esperando que algum garoto daquele grande círculo no entorno das mesas, decidisse dar o passo em direção à boa, embora muda, cantada do braço em torno do meu ombro para a volta no salão. Bons tempos, sem dúvida!
“Mas quem é você, diga logo que eu quero saber.
(da canção Noite dos Mascarados, de Chico Buarque)
Fazíamos parte de um grupo de carnaval da Rua Pardal Mallet, bem próxima à Campos Sales, a rua do clube, e de lá saíamos fantasiados para a entrada triunfal no salão ao som do bom e envolvente hino do América.
“Hei de torcer, torcer, torcer...
( hino do América, de Lamartine Babo)
Deliciosos bailes que terminavam às quatro da manhã e que já retomávamos na matinê do dia seguinte, às quatro da tarde. Sem cansaço, sem restrição ao prazer do divertimento mais pueril.
Mais alguns anos e voltei às matinês, dessa vez com meus filhos, pequenos foliões a repetir e perpetuar a cultura da atração pelos confetes. Piratas, baianinhas, melindrosas...os dois, João Henrique e Ana Luiza, estiveram fantasiados por anos a fio. Até que, crescidos, escolhessem a melhor forma de brincar ou não brincar o Carnaval. Esse foi, talvez, o período da vida em que meu encontro com o reino de Momo tornou-se mais tênue. Minha alma carnavalesca hibernou-se em meio às fraldas, brincadeiras e hora certa para dormir...
Os filhos cresceram, viraram adultos e a folia descompromissada tomou-me novamente. Inapelável e intensamente. Conto os dias que antecedem ao período, penso em fantasias, programo cada passo ao som da batida apaixonante dos surdos e tamborins. Pré-carnavalescos, blocos de rua, o desfile na Marquês de Sapucaí.... me encontro e reconheço na farra insana que nos faz todos tão donos do mesmo reino. Não existem vassalos no reino de Momo e, travestidos ou não, somos todos irmãos da família e da história contada e cantada em emocionados refrões.
“Tanto riso, quanta alegria...mais de mil palhaços no salão,
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina..
No meio da multidão..."
É claro que tudo na vida é escolha. E que poder escolher por prazer é sempre a melhor trajetória. Compreendo os que não entendem a entorpecente folia que mistura e funde, corpos, suores e emoção. Os que preferem o silêncio, a concentração. Os que escolhem a constrição. A todos...a benção do rei supremo. Momo, é claro. Apesar de monarca, ele não é déspota. Ama a diversidade e seu reino não impõe. Só expõe. Que bom que assim seja!!!
AS CRIATIVAS BRINCARÃO O CARNAVAL, CADA UMA DO SEU JEITO.
ATÉ LÁ...DIVIRTAM-SE, PASSEM POR AQUI E SE CRIATIVEM QUANDO QUISEREM!


























1. Corte quadrados de 16 cm x 16 cm no papel escolhido e cubra uma das laterais com a fita.


