Não...nunca fui à Paris em abril, mas fui muito feliz por lá. E também quando fui à Gramado; quando conheci Porto de Galinhas; quando vou à casa da minha irmã para os deliciosos e intermináveis almoços familiares; quando estamos todos reunidos na praia, ao sabor do sol, de frente pro mar, tomando mate de galão e papeando sem compromisso. Não importa o lugar, o país, a estação do ano, a grana que sobra ou que foge. Alguns momentos, fugazes ou generosos, serão sempre a expressão da perfeita sintonia entre viver e desfrutar.
Você certamente já viveu esse instante em que somos capazes de alterar os movimentos de rotação e translação da Terra e a fazemos parar. Só para olhar, só para sentir, só para registrar e lembrar. Uma sensação que sempre comparo ao conforto autoexplicável dos segundos que se seguem ao prazer do sexo amoroso.
Pensei nisso lendo a coluna semanal do Artur Xéxeo, no Jornal O Globo, onde ele, ao comentar sobre as matérias produzidas para brindar a chegada do outono, lembrou da música do Ed Mota que adoro e da qual peguei emprestado a frase que começa a crônica de hoje. “Há um lugar para ser feliz, além de abril em Paris. Outono, no Rio”.
Sim, o outono é lindo no Rio de Janeiro. Mas é absolutamente avassalador em Paris. E porque gosto de lembrar onde e como fui feliz, onde e como tenho construído minha história, pensei em contar essa estória por aqui. E não...não pensem que só acho possível ser feliz em viagens, na Europa ou, mais especificamente, em Paris. Como disse aí em cima, os momentos mais simplórios costumam me trazer um bem enorme. Mas é de ser feliz, talvez em Paris, que falo aqui.
Conheci a cidade iluminada durante o outono. Foi num dia cinco de dezembro. Chegamos( eu, Carlos, minha irmã e meu cunhado) ao Aeroporto Charles De Gaulle, pegamos o trem RER (em Paris, as linhas de metrô e trens são comuns), e trinta minutos depois desembarcávamos, de malas e alma, em plena estação Saint-Michel Notre Dame para conhecer, desvendar e me apaixonar por Paris.
Já fazia algum frio, a mala pesava, mas a cada degrau que vencíamos em direção à rua, os pequenos trechos que se descortinavam aos olhos me traziam a certeza de que viveria mais uma vez a deliciosa experiência de sentir-me tomada pelo vento bom que nos inunda quando somos felizes. E caminhamos e nos perdemos várias vezes procurando nosso hotel ( Hôtel de Notre-Dame, localizado bem próximo à fantástica catedral gótica). Diante do impacto avassalador que me tomou no momento em que vi e senti a cidade, já não sabia mais se olhava para o mapa, se observava as grandiosas construções, se curtia as pessoas que cruzavam a nossa frente ou se me dava conta dos atropelos de cruzar calçadas cheia de malas. Tenho gravada na minha memória esse instante, o deslumbramento que experimentei e o registro do “ali eu fui feliz”.
As cores do outono em Paris. A foto foi tirada na Champs Élisée, tendo ao fundo o Hôtel des Invalides,um enorme monumento parisiense , cuja construção foi ordenada por Luis XIV, em 1670, para dar abrigo aos inválidos de seus exercitos. Hoje em dia continua acolhendo os inválidos, mas é tambem uma necrópsia militar e sede de varios museus. Napoleão Bonaparte foi sepultado lá.
Queria falar um pouco desse meu olhar sobre Paris, muito pessoal e apaixonado. A cidade é deslumbrante, qualquer pessoa fazendo o roteiro mais básico e tradicional, vai se apaixonar. Portanto, em caso de possibilidade, não desperdice. Fui a todos os ícones turísticos da cidade e carimbei minha presença em lugares que todos vão. Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Montmartre, Museu do Louvre, Jardim de Tuileries, Montparnasse, Champs Élysée, Invalides, Museu Rodin, Gendarmerie, Opera de Paris e até no Palácio de Versailhes.
Mas não vou esquecer do percurso que fizemos a pé de nosso hotel até a Torre Eiffel. Três estrelas honestíssimo, nosso hotelzinho ficava no lado sul da Rive Gauche, entre o Quartier Latin e a Notre Dame, numa rua pequenina chamada Maître Albert, e onde estavam localizados alguns dos mais simplórios e charmosos estúdios de design que já vi na vida. Na verdade, se existe algo que realmente dispara meu coração em Paris é a surpresa de estar numa metrópole linda, com edifícios e construções oriundos do apogeu monárquico, mas com um cotidiano tão simplório quanto sedutor.
O marco mais famoso de Paris, a torre foi construída por Gustave Eiffel para a Exposição Mundial de 1889, centenário da Revolução Francesa.
E foi andando através da cidade, de suas ruelas e das grandes avenidas sonhadas pelo absolutista Luis XIV, que vimos aproximar de nosso olhar a imponência daquela construção em ferro, erguida em 1889 em homenagem ao centenário da revolução francesa. Uma sensação semelhante assim ao encantamento da primeira bicicleta; ao calafrio quente do primeiro beijo de amor. E me vi criança outra vez, encurtando os últimos metros com o passo acelerado do coração. Inesquecível sensação. E voltei a repetir a emoção na saída do metrô na estação do Arco do Triunfo. O céu infinitamente azul recebendo de braços abertos o monumento construído para celebrar as vitórias militares de Napoleão.Saindo da estação do metrô e tendo meu primeiro e mágico olhar sobre o Arco do Triunfo.
Fui feliz quando me embrenhei pelo Jardim de Tuileries, entre a Praça da Concórdia e o Museu do Louvre, Ali, em frente ao grande lago, permiti que aquele novo amor contasse a história da minha viagem. Porque adoro jardins grandiosos e bem cuidados. E aquele parece ter saído de um conto de fadas, onde a jovem camponesa troca o primeiro olhar com o príncipe encantado. E também fui feliz em frente ao Louvre, quando vi realizado o sonho de, tal qual Robert Langdon, sentar em uma das quinas da pirâmide de vidro e viver a sensação de ter um mundo de arte e torpor aos seus pés. Ali, ao contrário dos muitos que visitam o museu, me dediquei a admirar o salão das obras e esculturas romanas – profundamente sedutoras para mim. E ver crianças das mais variadas idades, sentadas no chão a desenhar, admirar e estudar, desde cedo, a história de nossa civilização através da riqueza das obras de arte. Incrível.O Museu do Louvre foi originalmente uma fortaleza fundada em 1190. Em 1546, o rei François I decidiu transformar a construção em um palácio real. O local virou museu em 1793 e hoje ocupa uma área de 156 mil metros quadrados. O acervo está distribuído em três alas, batizadas com o nome de grandes funcionários de estado da história da França: Sully (Ministro da Fazenda do rei Henry IV), Richelieu (Cardeal e Ministro do rei Luís XIII) e Denon (1º Ministro do Museu Central de Arte no governo de Napoleão I).Sua coleção permanente conta com 35 mil obras expostas. A mais famosa é a Monalisa, de Leonardo Da Vinci
E não vou me esquecer do prazer e das histórias de um dia inteiro andando pelas pequenas ruas – no máximo umas oito -, lojinhas lindas, charmosos hotéis, bistrôs e boulangeries (as irresistíveis padarias francesas) da Île Saint-Louis. Sim...é um ilha, mas ao contrário das demais ilhas do mundo, tem a grande vantagem de estar cercada de Paris por todos os lados.
Não...lá não encontramos nada que pudesse ser vendido com a palavra Paris escrita. E isso foi bom demais! A ilha também não dispõe de estação de metrô, mas fica a dez minutos a pé do Marais e tem uma vista maravilhosa da catedral de Notre-Dame. Saint-Louis é sedutora e apaixonável no primeiro olhar. E no meu caso, a rendição foi instantânea. Entre prédios pequeninos repletos de estúdios de arte e escritórios de arquitetura e design, duas lojas lindas da Pylônes, com os mais incríveis objetos de decoração. Além da incrível l’Epicerie, com condimentos e geléias tão saborosos quanto originais. E o l’Orangerie, que só abre para o jantar e troca de menu todos os dias. Apesar do frio, o sentimento da paixão aqueceu nossa alma e tomamos sorvete de casquinha naquela que é considerada a melhor sorveteria de Paris, o Berthillon.
E precisa legendar?
E tomamos café...e voltamos a caminhar...e chegamos à beira do Sena, sob o vento forte da noite em Paris, e cruzamos a ponte de volta ao hotel. Mas da Île Saint-Louis e de Paris no outono, não vou esquecer. Foi um dia para guardar para sempre. Um dia como hoje, quando relembro em palavras da sensação gostosa que conforta a alma quando, ainda que fugazmente, somos infinitamente felizes.
























