Outro dia, conversando com uma amiga na praia, a ouvi dizer que não era feliz. Era alegre, mas não era feliz. Alguns dias depois, outra amiga muito próxima disse que estava triste, mas que era feliz. E para as duas, as frases representavam uma afirmação. Não um questionamento ou uma reflexão. Realmente pensam a felicidade, entendem essa sensação como um estado d´alma. Mas será que é fácil assim? Será que somos realmente capazes de nos enquadrar nessas definições de forma tão simples? Não terá essa equação muito mais x e y do que as variáveis que enfrentávamos nas aulas de matemática?
Sim, hoje quero falar de felicidade. É claro que vou, de uma forma ou de outra, expor alguns dos meus conceitos pessoais sobre tudo isso. Mas também vou relatar a maneira como algumas outras pessoas ou doutrinas entendem essa tal de felicidade.
Na verdade, felicidade é um conceito moderno. Em boa parte da vida e da história das civilizações, a idéia da busca pela felicidade era algo que não existia. O importante era a busca pela paz interior, pelo equilíbrio de você mesmo com o mundo e com as emoções que ele inspira. Através da história, e principalmente a partir do século XX, com a explosão da cultura midiática e dos meios de comunicação de massa, ser feliz se transformou em mais do que caminho, virou razão; passou a ser mais do que latência, virou necessariamente um estado d´alma.
Vejam que curioso: a palavra felicidade vem do latim “augurium”, que significa augúrio ou sorte, já que – teoricamente – não dependeria do homem, mas sim de algo exterior a ele. Aristóteles, o sábio filósofo grego, defendia a ideia de que felicidade não passava de uma capacidade de contemplação: “Quanto mais se desenvolve a nossa faculdade de contemplar, mais se desenvolvem nossas possibilidades de felicidade, e não por acidente, mas justamente em virtude da natureza da contemplação. Esta é preciosa por ela mesma, de modo que a felicidade, poderíamos dizer, é uma espécie de contemplação”.
O professor Yongey Mingyur Rinpoche é um mestre venerado da linhagem Karma Kagyu, do budismo tibetano. Nascido no Nepal, foi reconhecido como um tulku (reencarnação de um mestre) aos três anos de idade. Desde 1998, Rinpoche prega ao redor do mundo e é conhecido pela habilidade de passar os ensinamentos budistas de maneira clara e simples. Veja o que ele diz sobre felicidade:
“A felicidade é paz de espírito, confiança, mente aberta, calma. É não se sentir culpado nem ansioso. Muitas pessoas pensam que para ser feliz é necessário ter coisas materiais ou encontrar o amor verdadeiro. Elas estão erradas? Talvez sim, porque elas podem ter momentos de alegria, mas isso não durará para sempre. A felicidade não pode depender do que está fora, de circunstâncias ou objetos exteriores, mas deve começar dentro de nós, brotar do âmago de cada um. A felicidade verdadeira é interna, é estar bem consigo mesmo. Qual o segredo da felicidade? É saber converter o sofrimento em alegria. Esta é a magia. Uma das melhores maneiras de fazer isso é usar a dor como base da felicidade. O sofrimento faz parte da vida; mais do que isso, é o verdadeiro caminho para a realização, é nosso maior apoio, um amigo que nos ajuda a crescer e a dominar nossos medos. Ele se transforma em alegria quando percebemos que não é algo real, apenas imaginário”.
Me sinto confortável com essa linha de pensamento. Realmente não há sensação que eu busque mais do que a de paz comigo mesmo. Se alguém me pergunta se sou feliz, não consigo ter uma resposta. Porque realmente não acredito na felicidade como um estado d`alma. Ela será sempre latência para mim. Porque estou feliz ou infeliz; não sou feliz ou infeliz. Estou alegre ou triste; não sou alegre ou triste. Mas se existe um estado d´alma que me conforta e pelo qual tantas vezes passe, feliz ou não feliz, alegre ou triste, é o que me leva ao equilíbrio comigo mesmo, com as pessoas que me cercam, com a vida ao meu redor. Não somos felizes sempre porque somos humanos, mas também não somos infelizes sempre porque somos humanos também. Não aprisiono a minha felicidade ou a minha alegria às minhas conquistas materiais ou ao que vejo ao meu redor porque isso talvez não me permitisse dormir em paz nenhum dia. Como posso ser “feliz” se na porta da minha casa dormem crianças absolutamente abandonadas à própria sorte? Como não posso ser “feliz” se na minha porta dormem famílias sem nenhum recurso quando eu tenho tudo que tenho?
Afinal, o que pontifica minha felicidade? Muitas coisas me fazem feliz, extasiada, alegre, na deliciosa viagem licérgica do encantamento. Mas são efêmeras, tanto quanto os momentos em que me angustio e sofro pela incapacidade de resolver, reconstruir, recomeçar, vencer. É nessa montanha russa, de altos e baixos, que faço surgir a base daquilo que para mim constitui o meu melhor caminho: o da paz comigo mesma.
Como diz minha amiga Jane, com quem sempre divido as minhas viagens filosóficas e que um dia vou trazer aqui para o blog para que vocês conheçam sua imensa grandeza e lucidez, “eu quero a linha do equilíbrio.Posso sofrer, perder pessoas que amo, sentir a dor de tudo isso; talvez não seja feliz, mas serei eu. Se não posso fazer feijoada com peixe, vou fazer peixada”.
É isso, minha amiga. Eu também vou fazer peixada. E vou comer com gosto e prazer. Bom...agora comentem, discordem, argumentem ou simplesmente leiam. Também gosto assim.
Um final de semana de paz consigo mesmo. Até sexta!!