Na última sexta-feira, dia 18 de junho, a Universal Orlando inaugurou o The Wizarding World of Harry Potter, uma gigantesca área que reproduz o mundo mágico do pequeno bruxo criado na imaginação fértil de J. K. Rowling, a escritora britânica que não apenas fez dos sete livros que compõem a saga verdadeiros best sellers, como ofereceu para crianças e adultos a possibilidade de uma viagem de encantamento através do Castelo de Hogwarts e sua escola de magia e bruxaria.
Desde o lançamento do primeiro volume, Harry Potter e a Pedra Filosofal, em 1997, os livros conquistaram um imenso sucesso comercial em todo o mundo, gerando frutos também rentáveis como os filmes, jogos de vídeogame, cadernos e muitos outros itens. Os sete livros venderam cerca de 500 milhões de exemplares e já foram traduzidos em mais de 63 idiomas. Rowling é hoje a mulher mais rica na história da literatura. E foi com grande habilidade e talento que ela, através das aventuras de Harry Potter e os conflitos com o bruxo maligno Lord Voldemort, soube encantar o mundo com histórias repletas de mensagens sobre o valor das amizades, o peso de nossas escolhas, preconceito, coragem, as razões e não razões da vida e da morte.
Sim...eu sou uma leitora voraz das aventuras de Harry Potter, do mundo fantástico que J.K.Rowling soube trazer para as páginas de sua série vitoriosa e que, na verdade, tão somente traduzem a forma como as histórias e histórias fizeram e fazem parte de sua vida. Pois foi pensando no meu prazer com as aventuras do bruxinho Potter, tanto quanto na alegria que desfruto quando vou brincar no mundo mágico dos complexos Universal/Disney, que ocupo hoje o dia de segunda-feira do Criative-se. Nas férias da Roberta, vou passear por aqui e pela quarta também. E prometo que vou reservar meus textos PPP ( palavras para pensar) para os dias de sexta-feira.
Só peço um pouquinho de paciência e boa vontade. Porque gostaria muito que todos dedicassem um pouquinho de tempo para ler esse texto – grande, mas excelente – que nada mais é do que uma palestra que J.K. Rowling fez durante uma formatura na Universidade de Harvard, no ano de 2008. Uma lição muito legal sobre sonho, fracasso, vitória, prazer. Curtam com calma. Vale a pena!!
“Membros de Harvard, pais orgulhosos, e acima de tudo, formandos. A primeira coisa que gostaria de dizer é “obrigada”. Não apenas Harvard me deu uma grande honra, mas as sensações de medo e náusea que eu senti só de pensar nesse discurso me fizeram perder peso. Uma situação boa de qualquer forma. Agora tudo que tenho a fazer é respirar fundo e me convencer de que estou no maior encontro do mundo de membros da Grifinória.
Nesse grande dia, que nos reunimos para celebrar o sucesso acadêmico de vocês, eu decidi falar sobre os benefícios do fracasso. E quando vocês se encontrarem na confusão que às vezes chamamos de ‘vida real’, quero falar da importância crucial da imaginação. Eu sei que eles podem parecer contraditórios e paradoxos, mas fiquem comigo.
Voltando para meus 21 anos, idade da minha graduação, é uma experiência meio desconfortável para essa mulher de 42 que me tornei. Metade da minha vida atrás, eu me encontrava no caminho do que eu queria para mim e os que estavam perto de mim esperavam de mim. Eu estava convicta que a única coisa que queria fazer era escrever romances. No entanto, meus pais, que vieram de passados pobres e nunca haviam feito faculdade, achavam que a minha imaginação era uma qualidade pessoal que nunca pagaria uma hipoteca ou seguraria uma pensão.
Então eles esperavam que eu tivesse uma graduação; Eu queria estudar literatura inglesa. Um compromisso que em retrospecto não satisfazia ninguém, e eu acabei indo estudar Línguas Modernas. Mal meus pais saíram da faculdade, eu saí da aula de alemão e fui em busca do corredor de Clássicos. Eu não lembro de dizer aos meus pais que havia mudado de curso, eles, provavelmente, descobriram no dia da minha formatura.
Mas quero deixar bem claro que eu não culpo meus pais por pensarem dessa forma. Existe uma data de validade para as pessoas culparem seus pais por as guiarem ao caminho errado. O momento em que você é adulto o bastante para pegar o volante, a responsabilidade agora é sua.
E eu não posso criticar meus pais por esperarem que eu nunca tivesse que lidar com a pobreza. Eles foram pobres e eu, desde então, fui pobre. Mas o que eu tinha mais medo na idade de vocês não era a pobreza, mas o fracasso. Na sua idade, ao invés de uma total falta de motivação na faculdade, em que eu passei mais tempo na cafeteria escrevendo histórias, do que nas salas de aula, eu tinha talento para passar nos exames finais. E isso, por muito tempo, foi o que considerei como sucesso junto aos meus colegas.
Vocês podem ser guiados por um medo do fracasso, na mesma velocidade do desejo pelo sucesso. Na verdade, a sua concepção de fracasso não deve ser muito longe da ideia de sucesso de uma pessoa normal, de tão alto que vocês já voaram
No final das contas, temos que decidir por nós mesmos o que constitui o fracasso. Mas o mundo lhe dá uma série de critérios, se você deixar. Então eu acho certo falar que por qualquer medida convencional, depois de sete anos da minha formatura, eu havia falhado em uma escala épica. Eu estava divorciada, mãe sozinha, sem emprego, e o mais pobre possível que se pode ser na Inglaterra sem ter que viver na rua. Os medos que meus pais tinham para mim e que eu também tinha para se realizaram.
Eu não tinha idéia do que aconteceria e por muito tempo a luz no fim do túnel era um desejo e não uma realidade. Então por que eu falo sobre os benefícios do fracasso? Simplesmente porque o fracasso significa o abandono do inessencial. Eu parei de fingir para mim mesma que eu era algo além do eu era e passei a guiar toda minha energia em terminar o único trabalho que importava para mim. Se eu tivesse tido sucesso em alguma outra coisa, eu talvez nunca tivesse encontrado a determinação para ir atrás da única área que eu acreditava pertencer. Eu me senti livre, pois meu maior medo havia se tornado real, e eu ainda estava viva, e eu ainda tinha uma filha que amava, e eu tinha uma antiga máquina de escrever e uma grande ideia. Então, o fundo do poço se tornou uma fundação sólida para reconstruir a minha vida.
Talvez você nunca falhe na escala em que eu falhei, mas alguma falha durante a vida é inevitável. É impossível viver sem falhar em algo, a não ser que você viva de maneira tão cautelosa que você nem consegue viver – nesse caso, você falha por padrão.
Se eu pudesse voltar no tempo, diria ao meu eu de 21 anos que a felicidade pessoal se baseia em perceber que a vida não é uma checklist de aquisições ou conquistas. Suas qualificações e seu currículo não são a sua vida, ainda assim você vai encontrar muitas pessoas da minha idade e mais velhas que confundem os dois. A vida é difícil e complicada e fora do controle absoluto de qualquer pessoa. E é a humildade de perceber isso que permitirá você sobreviver às vicissitudes.
Agora vocês podem imaginar que eu escolhi meu segundo tema, a importância da imaginação, por conta da papel que ela representou na reconstrução da minha vida, mas não é só por causa disso. Apesar de pessoalmente defender o valor das histórias de dormir, eu aprendi a valorizar a imaginação em um sentido muito mais vasto. Imaginação não é apenas a única capacidade humana de vislumbrar o que não é, portanto, a fonte de toda invenção e inovação. Ela é a mais transformadora e reveladora capacidade, capaz de permitir que criemos empatia com os seres humanos cujas experiências nós nunca compartilhamos.
Uma das maiores experiências de formação da minha vida precedeu Harry Potter, apesar de ter influenciado muito no que escrevi nos meus livros. E essa revelação veio na forma de um dos meus primeiros empregos. Apesar de estar escrevendo histórias durante o meu horário de almoço, eu paguei o aluguel nos meus 20 e poucos anos trabalhando no departamento de pesquisa da África na Anistia Internacional, nos arredores de Londres.
Lá, no meu pequeno escritório, eu li cartas contrabandeadas para fora dos regimes totalitários por homens e mulheres que se arriscaram para informar ao mundo o que acontecia a eles. Eu vi fotografias, daqueles que desapareceram sem deixar rastro, enviadas para a Anistia por familiares e amigos desesperados. Eu li o testemunho de vítimas de tortura e vi imagens das suas lesões. Eu abri manuscritos de testemunhas oculares de julgamentos e execuções sumárias, de seqüestros e estupros.
Eu nunca me esquecerei de uma vítima de tortura, um africano não mais velho do que eu na época, que havia ficado mentalmente doente depois de tudo que passou na sua terra. Ele tremia incontrolavelmente ao falar para uma câmera de vídeo sobre a brutalidade que sofreu. Ele era bem mais alto que eu, mas parecia frágil como uma criança. Eu recebi a tarefa de escoltá-lo de volta para estação depois de tudo e esse cara, cuja vida havia sido destruída pela crueldade, segurou a minha mão com toda a cortesia e me desejou felicidade futura.
E pelo tempo que viver vou me lembrar de andar por um corredor vazio e de repente ouvir, por trás de uma porta fechada, um grito de dor e horror como nunca ouvi antes. A porta abriu e um companheiro de trabalho colocou a cabeça para fora e me pediu para correr e preparar uma bebida quente para o jovem sentado com ela. Ela havia acabado de dar a ele a informação de que, em retaliação por suas declarações contra o regime do seu governo, sua mãe havia sido executada.
Ao contrário de todas as outras criaturas do planeta, humanos podem aprendem e entender sem ter vivenciado. Eles conseguem se colocar no lugar de outras pessoas. Esse é um poder, como a magia da minha ficção, que é moralmente neutro. Alguém pode usá-lo como uma habilidade para a manipulação ou controle, assim como para entender e simpatizar.
E muitos preferem não exercer a imaginação. Eles escolhem o conforto de se manter nos limites da sua própria experiência, nunca se preocupando em imaginar como seria se tivesse nascido em outro lugar, outra circunstância. Eles podem se recusar a ouvir gritos, eles podem fechar suas mentes e corações para qualquer sofrimento que não os toca pessoalmente; eles podem se negar a saber.
Eu posso ficar tentada a invejar as pessoas que conseguem viver dessa forma, exceto pelo fato de que não acho que elas tenham menos pesadelos do que eu. A escolha de viver desse jeito leva a uma forma de agorafobia mental e isso traz o seu próprio terror. Eu acho que pessoas sem imaginação vêem mais monstros. Eles costumam ter mais medo.
Mas quanto vocês, graduados de Harvard de 2008, provavelmente tocarão a vida de outras pessoas? Sua inteligência, sua capacidade para o trabalho duro, a educação que vocês mereceram e receberam, lhes dão um status único e responsabilidades únicas. Se você optar por usar seu status e influência para elevar sua voz em prol daqueles que não têm voz; se você escolher identificar não apenas com os poderosos, mas com os sem poder; se você preservar a habilidade de se imaginar dentro da vida daqueles que não possuem as suas vantagens, então não serão apenas suas orgulhosas famílias que celebrarão sua existência, mas milhares e milhões de pessoas cujas realidades você ajudou a mudar. Nós não precisamos de mágica para mudar o mundo, nós já carregamos todo o poder que precisamos dentro de nós: nós temos o poder de imaginar melhor.
Eu já estou quase acabando e tenho mais uma esperança para vocês, algo que eu já tinha aos 21 anos. Os amigos com os quais sentei no dia da minha formatura têm sido meus amigos para a vida. Eles são os padrinhos dos meus filhos, as pessoas a quem procurei em momentos difíceis, pessoas que foram legais o suficiente para não me processarem quando coloquei seus nomes em Dementadores. Na nossa formatura nos unimos por nosso grande carinho e pelas experiências compartilhadas em um tempo que não voltará.
Então hoje, desejo nada melhor do que amizades similares. E amanhã, espero que mesmo que vocês não lembrem de uma única palavra minha, vocês lembrem daquelas de Sêneca, outro desses romanos antigos que eu conheci no corredor dos Clássicos, em busca de sabedoria antiga.
Como um conto, assim é a vida; não quão longa é, mas quão boa é, é o que importa.
Eu desejo a vocês grandes vidas. Muito obrigada”.